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Cantando Zumbi: peça relembra luta histórica dos negros no Brasil

Cantando Zumbi: peça relembra luta histórica dos negros no Brasil

O grito forte dos Palmares continua vivo, ecoando e percorrendo vários espaços em São João del-Rei e região. No mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o musical “A gente Canta Zumbi e outras histórias”- projeto de extensão do IF Sudeste MG- Campus São João del-Rei, em parceria com a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)- veio para mostrar a resistência e a luta pela construção de um sonho de liberdade em “tempos de guerra, tempos sem sol”.

Professora Rosana Machado, responsável pela direção da peça, conta como surgiu a oportunidade de montar o espetáculo. “Recebi o convite do aluno do curso de Teatro da UFSJ, Sebastian Júnior, para a direção do espetáculo cênico musical, a partir da peça "Arena Conta Zumbi".

Segundo Rosana, a partir dessa proposta, em parceria com os servidores Diogo Pereira Matos, Tatiana Tórpede, professoras Elke Teixeira e Janaína Maia foram propostos dois projetos de extensão: “Letramento Racial por meio da Educação, Cultura e Gestão: caminhos para a construção de uma sociedade antirracista” e “Ações de Cultura, Gestão e Educação para o Letramento Racial”.

Uma das ações dos projetos foi à construção do espetáculo teatral “A gente canta Zumbi... e outras histórias”. “A participação dos servidores das diferentes áreas (Educação, Letras e Gestão) no desenvolvimento dos projetos foi fundamental para alcançar os objetivos dos projetos. Especificamente, sobre a peça teatral, a área de Gestão exerceu (e está exercendo) um papel fundamental no processo de produção e gestão cultural”, pontua Rosana.

Segundo aluno da UFSJ, Sebastian Júnior, o projeto foi essencial para que ele conseguisse o seu objetivo. “Eu sempre desejei que o meu trabalho de conclusão de curso, chegasse ao maior número de pessoas possíveis, mas no início isso era inviável. Quando convidei a Rosana Machado para dirigir o espetáculo, ela me propôs que o projeto se transformasse em um projeto de extensão pelo Instituto Federal, então nossas ideias tiveram uma conexão imediata”.

 

Debate do tema racial

Embora narre a história de Zumbi dos Palmares e a luta que levou a destruição do quilombo no final do século XVII, o público é capaz de perceber referências e nuances do preconceito e segregação racial ainda presente em nosso cotidiano. Rosana, disse que “o texto original dialoga diretamente com o momento político que estamos vivenciando: no original a ditadura militar; no atual vários retrocessos no que concerne aos direitos dos trabalhadores e da população pobre, risco iminente de perda de vários direitos”. Diz a professora.

Rosana contou que durante a construção do espetáculo optou por não assistir vídeos que pudessem influenciar o processo de criação, apenas trabalhou com o texto escrito. Além disso, foi utilizado o áudio original da peça.

Durante a construção do musical, houve uma incorporação de textos que denunciam situações atuais e que afetam a realidade da população negra brasileira. “Foram incorporados fragmentos de texto de Cristiane Sobral, dados do Átlas da Violência 2018, trechos de músicas como “A Carne” de Elza Soares”,  explica Rosana.

A diretora explica que algumas adaptações foram necessárias ao longo do texto. “Modificamos a relação da atuação das mulheres em Palmares. No texto original, elas assumiam um papel secundário, como se só tivessem o papel de companheiras (muitas vezes trazidas a força para Palmares). Na adaptação, optamos por reforçar o protagonismo dessas mulheres palmarinas. As atrizes construíram uma cena falando do protagonismo da mulher negra, foram cortados trechos do texto teatral que traziam inferências sobre a submissão feminina.”

 

Uniformidade e diversidade

Segundo Rosana, para lidar com o baixo orçamento e fazer com que os mesmos atores possam representar diferentes personagens, a professora Érica Marins, concebeu figurinos variados que se encaixavam com a proposta. “Foi criado um figurino geral, para todos os atores, utilizado para simbolizar as personagens negras. Embaixo desse figurino, vermelho, existia um outro traje, azul, com novo significado. Os atores desamarravam uma parte destacável do figuro vermelho para representar, então, os personagens brancos e opressores com a cor azul. O figurino vermelho poderia também se transformar em um figurino verde, utilizado para a personagem coringa, personagem narradora.”

Sebastian Junior contou um pouco sobre a preparação vocal dos artistas. Segundo ele, durante a primeira parte do trabalho, depois dos aquecimentos vocais e corporais de praxe, os atores foram estimulados a cantar, como desejassem, músicas que eles consideravam trazer algum bom sentimento. “Esse processo de deixar o ator confortável com os outros, cantando o que mais lhe parece prazeroso, foi importante para mostrar a eles que serão bem recebidos por todos, independentemente de como seu canto soe. Na segunda parte foi pedido a todos que trouxessem um acessório, roupa, objeto, que tivessem importância para eles, mas que pudessem ser incorporados ao espetáculo, dessa parte do trabalho nasceu à cena do ritual religioso na hora da Ave Maria”, explica.

A luta de Palmares

Apesar do espetáculo ter aproximadamente uma hora e meia, o ritmo dinâmico faz com que o roteiro flua bem e comunique a mensagem política da peça, cumprindo com o proposto pela diretora e pelos artistas. “A ideia é que a construção da peça possa contribuir para o letramento racial dos atores e, principalmente, possa contribuir para que o público que assistir à peça possa questionar alguns lugares e ‘não lugares’ da população negra na sociedade”, diz, Rosana. Segundo Sebastian “o espetáculo, apesar de mostrar a luta entre os negros e os brancos, quer mostrar que somente unidos conseguiremos fazer com que essa luta nunca mais se repita”, conclui.

Onde assistir?

O espetáculo tem como objetivo realizar suas apresentações em escolas públicas, comunidades quilombolas e também em eventos acadêmicos e espaços culturais de São João del-Rei. A preferência foi abarcar, prioritariamente, escolas periféricas e espaços culturais que ainda não possuem muita visibilidade num processo de valorização da resistência e promoção de inserção cultural.

O espetáculo já foi apresentado em três eventos acadêmicos:

- VII ENLETRARTE – Encontro Nacional de Professores de Letras e Artes. Tema: DO PAPEL AO PALCO-ATOS DE RESISTÊNCIA. Local: Instituto Federal Fluminense – Campus Campos Goytacazes. Dia 04 de Outubro de 2018

- X COPENE - Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. Tema: 18 anos de enfrentamento. Local: Universidade Federal de Uberlândia. Dia 13 de Outubro de 2018.

- III ERAS – Encontro de Relações Raciais e Sociedade. Tema: 15 anos da Lei 10.639/03: avanços e desafios. Dia 06 de Novembro de 2018.

E no dia 22 de novembro, foi apresentado na Escola Municipal Carlos Damiano Fuzatto.

Agenda das próximas apresentações:

06/12 – Escola Estadual Iago Pimentel

02/12 – Terreiro das Artes

08/12 - Comunidade Quilombola do Curralinho dos Paulas

13/12 – Escola Estadual Pio XII

16/12 – Centro Comunitário do Bairro Bom Pastor.

 

Ficha Técnica

Concepção e Direção: Rosana Machado
Atores: Ana Marina Edder Cardoso Gabriela Lucenti Lesson Natália Rocha Priscila Moraes Rafael Nascimento Rafael Pinheiro Rodolfo Rodrigues Sebastian Júnior Zilvan Lima
Músicos: André Mendes Júlia Dusi Rafael Nascimento
Preparação Vocal: Sebastian Júnior
Figurino: Erika Martins
Costureira: Elisa Pita